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Voluntarix

May 3, 2017

 

O(A) Voluntário(a)

Ao que parece, muitas pessoas que atuam em nosso movimento têm antecedentes de voluntariedade e não de voluntarismo, que são dois conceitos diferentes. Aparentemente existem muitos assistentes sociais, enfermeiras, professores, pessoas que, embora desenvolvendo atividades remuneradas, não se sentem de, modo nenhum, compensados com a remuneração que recebem pela atividade que desempenham. É certo que se lhes pagam mal irão protestar mais do que os outros para que sejam melhor remunerados, mas a orientação básica de suas atividades não termina neles mesmos, mas é direcionada para fora; depois virá, por problemas do cotidiano e outras razões, a necessidade de receberem remuneração por seu trabalho.

 

Mas essas pessoas ainda que lhes paguem mal têm forte tendência a ensinar coisas. O que é que nos querem dizer? E os outros profissionais que desenvolvem este tipo de atividade e não recebem nada por isso? No nosso Movimento existem muitas pessoas com antecedentes deste tipo. Há aquele que organizou um clube de bairro, aquele que quando era novo montou uma equipe de qualquer coisa... Vêm ao nosso Movimento e muitos deles são os que põem tudo em marcha. Outros não. Outros vêm em outras condições e buscando outras coisas, mas quando entendem o significado deste trabalho, afastam-se. Assim muitos são os que atuam em nosso trabalho, extraindo dele um sentido de justiça interna. Colocam-se em atividade com a mesma tendência e experiências das atividades que já haviam executado antes. Pode observá-los, há muitos exemplos. Não sei como será aqui, mas em todas as partes do mundo numerosos amigos nossos têm essas características e coincidem, em geral, com os que põem em marcha coisas. Eles têm na sua biografia antecedentes deste tipo.

 

Mas porque razão algumas pessoas fazem as coisas transcendendo o efeito imediato da ação desinteressada? O que se passa em suas cabeças para agirem de modo tão estranho? Do ponto de vista das sociedades consumistas, essa é uma forma atípica de agir. Todo aquele que nasceu e cresceu recebendo o impacto e a difusão de uma estrutura consumista, tende a ver o mundo no sentido da nutrição pessoal. Ele pensará que sendo um consumidor terá que tragar coisas. E como uma espécie de grande estômago que deve ser enchido. De forma alguma ele pensa que alguma coisa deva sair dele e dirá: - já sai bastante de mim, para que tenha direito a muitos bens de consumo. Já não dedico tantas horas ao meu trabalho no escritório, e pago com meu tempo todo tempo em que deixo de consumir para trabalhar no sistema? Efetivamente, isso é bem razoável. Ele, à sua maneira, troca horas de trabalho, horas/homem, por remuneração. Ele não põe a tônica do seu trabalho na atividade que desempenha no mundo, considera isto um mal necessário para que o circuito acabe em si mesmo. Assim estão montados os sistemas de um signo e outro signo. A coisa é a mesma: o consumidor.

 

A população está ficando neurótica, porque há um circuito de entrada e outro de saída. E se cortarmos o circuito de saída iremos gerar vários problemas. Mas o fato é que a maioria das pessoas está nesta história de receber e, ao propagar a ideologia do receber, não conseguem explicar como podem existir pessoas que fazem as coisas sem receber nada em troca.

Do ponto de vista do consumismo, isto é extremamente suspeito. Porque motivo alguém iria atuar sem receber o pagamento equivalente ao seu esforço? Essa suspeita, na realidade, revela um péssimo conhecimento do ser humano. Os que suspeitam disto, têm compreendido a utilidade em termos de dinheiro, e não a utilidade vital e psicológica. Por causa disto não faltam pessoas que, com elevado nível de vida e com todos os seus problemas resolvidos, se atiram pela janela ou vivem alcoolizado, drogado ou, em um momento de insanidade, assassina seu vizinho.

 

Nós reivindicamos publicamente algo que está desprestigiado. Reivindicamos aquele que salta da sua cama porque se está incendiando uma casa próxima. Ele rapidamente põe a roupa, seu capacete e sai correndo para apagar o incêndio. Quando volta (às seis da manhã, cheio de fumaça, chamuscado, com feridas) sua mulher do coração atira-lhe pratos na cara, dizendo: “Quanto te pagam por isso? Vais chegar tarde ao trabalho e criar-nos um problema por causa das tuas manias!”. Saindo ele de casa, o apontarão dizendo: “Sim, esse é o bombeiro voluntário”. Uma espécie de idiota frente aos outros que sentindo-se tão bem consigo mesmos, atiram-se pela janela. Normalmente, os bombeiros voluntários não se atiram pela janela. Quer dizer que eles, do seu modo, empiricamente, encontraram uma forma de aplicar sua energia em direção ao mundo. Eles não só tem podido lançar-se catarticamente a certas atividades (também os outros podem fazê-lo através do esporte, através da confrontação, através de muitíssimas operações) como também podem fazer algo mais. Eles podem, à diferença de outras pessoas, fazer algo muito mais importante: pôr um significado interno no mundo. E nesse caso, cumprem uma função empiricamente transferencial. Estão a compondo conteúdos que partem deles para o mundo e não estão respondendo a estímulos convencionais. É muito diferente aquele que está obrigado a fazer determinadas coisas em troca de uma remuneração, do que este outro que parte do seu mundo interno para o mundo externo e nele se expressa. Nele, voluntariamente, plasma conteúdos que não estão nada claros, nem para si mesmos e às vezes procura compreendê-los com palavras como “solidariedade” sem entender qual é o significado profundo de tal vocábulo. E mais: este pobre voluntário, que cada vez que chega à sua casa lhe atiram pratos e gozam-no, vai acabar por pensar que ele é efetivamente uma espécie de estúpido e vai concluir: “sempre me acontece isto”. E nem falar se ao invés de um voluntário for uma voluntária. Nesta sociedade, a coisa é grave ainda.

No fim estes voluntários acabam humilhados e assimilados pelo sistema porque ninguém lhes explicou como tudo isto acontece. Eles sabem que são diferentes dos outros, mas não podem se dar explicações sobre o que fazem. E se pegamos neles e lhes dizemos: “bom, vamos lá ver o que é que vocês ganham”, vão balbuciar e encolher os ombros como se tivessem que ocultar alguma coisa vergonhosa. Ninguém os esclareceu, ninguém lhes deu as ferramentas suficientes para se auto-explicarem e explicarem a outros, porque o enorme potencial que têm verte ao mundo sem esperar retribuição. E isso, desde já, é extraordinário.

Cidade de México, México.

11 de Outubro de 1980

Comentários (durante um intervalo) perante um grupo de estudos.

 

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