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Sala do Conexões de Saberes,

Pró Reitoria de Assuntos de Extensão.

Universidade Federal Rural de Pernambuco

Sede Recife/Dois Irmãos.

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Textos de referência do Projeto:

1 - Objetivos gerais

2 - A Educação

3 - A Não Violência Ativa

4 - As diferentes formas de violência

5 - A Violência

6 - A Mudança e a Crisa

7 - A Verdadeira Solidariedade

8 - A Coerência como direção de vida

9 - A Respeito do Humano

10 - Chegar a toda sociedade a partir do meio imediato

11 - Ação Transformadora

12 - O(A) Voluntário(a)

1 – Objetivos gerais

Os objetivos da Coletivo Humanista de Pernambuco são o estudo, o desenvolvimento, a difusão e a instalação de uma nova cultura apoiada nas idéias fundamentais do Humanismo Universalista.

Essa nova cultura será o correlato de uma configuração de consciência avançada em que todo tipo de violência provoque repugnância. A instalação de tal estruturação de consciência não-violenta nas sociedades seria uma conquista cultural profunda. Isso iria além das idéias ou das emoções que se manifestam de maneira débil nas sociedades atuais, para começar a fazer parte do tecido psicossomático e psicossocial do ser humano.

A atitude humanista, aspecto essencial dessa nova cultura, para além  de toda proposição teórica, pode ser compreendida como uma “sensibilidade”, como um posicionamento frente ao mundo humano, no qual se reconhecem a intenção e a liberdade em outros e em que se assumem compromissos de luta não-violenta contra a discriminação e a violência.

A Comunidade impulsiona projetos para a aplicação concreta dessa nova cultura nos diversos âmbitos da vida pessoal e social.

Essa nova cultura se fundamenta em uma nova concepção do ser humano da qual derivam uma escala de valores, uma metodologia de ação e um projeto pessoal e social.

Uma escala de valores cujos 6 pontos fundamentais são:

* Em primeiro lugar, a localização do ser humano como valor e preocupação central, de tal modo que nada esteja acima do ser humano e que nenhum ser humano esteja acima de outro.

* Em segundo lugar, afirma a igualdade de todas as pessoas e, portanto, trabalha pela superação da simples formalidade de igualdade de direitos perante a lei, para avançar em direção a um mundo de oportunidades iguais para todos.

* Em terceiro lugar, reconhece a diversidade pessoal e cultural e, portanto, afirma as características próprias de cada povo, condenando toda discriminação realizada em função de diferença econômica, racial, étnica e cultural.

* Em quarto lugar, promove toda tendência ao desenvolvimento do conhecimento por cima das limitações impostas ao pensamento por preconceitos aceitos como verdades absolutas ou imutáveis.

* Em quinto lugar, afirma a liberdade de idéias e crenças e, por último, repudia toda forma de violência, entendendo não somente a violência física como único fator, mas também a violência econômica, a violência racial, a violência religiosa, a violência moral e psicológica como casos cotidianos e arraigados em todas as regiões do planeta.

Uma metodologia de ação pessoal e social baseada na “não-violência ativa”. Essa metodologia promove uma atitude social e pessoal frente à vida, que tem como ferramentas principais de ação conjunta e conduta pessoal e social:

* Rechaço e vazio às diferentes formas de discriminação e violência.

* A não-colaboração com as práticas violentas.

* A denúncia de todos os fatos de violência e discriminação.

* A desobediência civil frente à violência institucionalizada.

* A organização e mobilização social, voluntária e solidária.

* O apoio decidido a tudo aquilo que favoreça a não-violência ativa.

* A superação das raízes da violência em si mesmo, o desenvolvimento das virtudes pessoais e das melhores e mais profundas aspirações humanas.

Segundo essa metodologia, a ação pela transformação social não se opõe à ação pela transformação pessoal. Pelo contrário, A Comunidade as entende como intimamente vinculadas e, por conseguinte, propõe uma atuação simultânea para superar tanto a violência social (externa) quanto a violência pessoal (interna).

 

2 - A educação

1. A percepção da paisagem externa e a sua acção sobre ela, compromete o corpo e um modo emotivo de estar no mundo. Desde logo, também compromete a própria visão da realidade, conforme comentei no seu momento. Por isso, creio que educar é basicamente habilitar as novas gerações no exercício de uma visão não ingénua da realidade, de maneira que o seu olhar tenha em conta o mundo, não como uma suposta realidade objectiva em si mesma, mas sim como o objecto de transformação a que aplica o ser humano a sua acção. Mas não estou a falar neste momento da informação sobre o mundo, mas sim do exercício intelectual de uma particular visão despreconceituosa sobre as paisagens e de uma atenta prática sobre o próprio olhar. Uma educação elementar deve ter em conta o exercício do pensar coerente. Neste caso, não se está a falar de conhecimento estrito, mas sim de contacto com os próprios registos do pensar.

2. Em segundo lugar, a educação deveria contar com o acicate da captação e do desenvolvimento emotivo. Por isso, o exercício da representação, por um lado, e o da expressão, por outra, assim como a perícia no manejo da harmonia e do ritmo, teriam de ser considerados no momento de planificar uma formação integral. Mas o comentado não tem por objecto a instrumentalização de procedimentos com a pretensão de "produzir" talentos artísticos, mas sim com a intenção de que os indivíduos tomem contacto contacto emotivo consigo mesmo e com outros, sem os transtornos a que induz uma educação da separatividade e da inibição.

3. Em terceiro lugar, deveria ter-se em conta uma prática que pusesse em jogo todos os recursos corporais de modo harmônico, e esta disciplina parece-se mais com uma ginástica realizada com arte que com o desporto, já que este não forma integralmente, mas sim de maneira unilateral. Porque aqui trata-se de tomar contacto com o próprio corpo e de governá-lo com soltura. Por isso, o desporto não teria que ser considerado como uma actividade formativa, mas seria importante o seu cultivo, tendo por base a disciplina comentada.

4. Até aqui falei da educação entendendo-a do ponto de vista de actividades formativas para o ser humano na sua paisagem humana, mas não falei da informação que se relaciona com o conhecimento, com a incorporação de dados através do estudo e da prática como forma de estudo.

3 - A Não-Violência  Ativa


A “não-violência” é uma atitude frente à vida cuja característica fundamental é a rejeição e o repúdio a todas as formas de violência.


Sua metodologia de ação é a “não-violência ativa”.


Esta metodologia impulsiona uma profunda transformação das condições sociais que geram sofrimento e violência sobre os seres humanos.


Os antecedentes históricos mais conhecidos encontram as figuras de Leon Tolstoi, M. K. Gandhi e Martin Luther King, como precursores exemplares e mais conhecidos da luta não-violenta frente à violência instituída.


Hoje mesmo, são milhares os exemplos cotidianos de ação não-violenta no mundo inteiro, nos diferentes níveis da ação social, onde indivíduos, instituições e organizações trabalham cotidianamente com o objetivo de denunciar e erradicar diferentes expressões de violência na sociedade, e impulsionar a paz.


A “não-violência”, como metodologia de ação pessoal e social, promove ações concretas com o fim de criar consciência do problema da violência, de suas verdadeiras raízes, de suas diferentes formas de manifestação, como violência física, racial, econômica, religiosa, psicológica e moral, ao mesmo tempo em que impulsiona ações exemplares que tendem a erradicar as práticas violentas da faz da Terra.


Algumas de suas ferramentas principais de ação pessoal e social são:


- A rejeição e o vazio ante as diferentes formas de discriminação e violência.

 

- A não-colaboração com as práticas violentas.

 

- A denúncia de todos os feitos de discriminação e violência.

 

- A desobediência civil frente à violência institucionalizada

 

- A organização e mobilização social com base no trabalho voluntário e na ação solidária de quem a impulsiona.


A “não-violência” organizada, unida e mobilizada constitui a única força capaz de modificar a direção violenta e desumana dos perigosos eventos no mundo atual.
A periculosidade da situação mundial atual e as possíveis conseqüências em um futuro imediato sustentam a urgente necessidade de reclamar e exigir a implementação de ações concretas e imediatas.



Algumas delas são:


1. O desarmamento nuclear imediato que ponha freio ao perigo suscitado pela nova corrida de armamentos nucleares, mediante o desmantelamento dos arsenais sob supervisão das Nações Unidas.


2. A retirada imediata das tropas dos territórios ocupados e o acatamento das resoluções e recomendações das Nações Unidas.


3. O avanço imediato na apresentação de propostas regionais que incluam o desarmamento progressivo das regiões e a substituição dos exércitos para a guerra por forças regionais de paz, que colaborem em situações de catástrofes e na solução de problemas básicos das populações.


4. Avançar de forma imediata para uma legislação internacional que declare a ilegalidade das armas nucleares, e que seu desenvolvimento e uso fiquem incluídos entre os crimes de “lesa-humanidade”.


5. Exigir como medida urgente o redirecionamento dos fundos públicos nacionais e internacionais para o desenvolvimento de campanhas que tenham como objetivo prioritário a erradicação dos terríveis e desumanos problemas de fome, saúde e educação, que hoje afetam vastas zonas do planeta e geram centenas de milhares de mortes diariamente.


6. Promover uma ação contínua desde indivíduos e organizações de todo tipo e nível, no campo social, político e cultural, com o fim de criar consciência da perigosa situação atual, e com o fim de impulsionar ações exemplares na direção de uma “cultura da paz e a não-violência”.

 

4 - As Diferentes Formas de Violência


A violência é uma metodologia de ação.


Assim, Silo no dicionário do Novo Humanismo define a violência como: “... É o mais simples, freqüente e eficaz modo para manter o poder e a supremacia, impor a vontade própria a outros, para usurpar o poder, a propriedade e ainda as vidas alheias...”, para mais adiante expressar:


“... A violência penetrou em todos os aspectos da vida: se manifesta constante e cotidianamente na economia (exploração do homem pelo homem, coação do Estado, dependência material, discriminação do trabalho da mulher, trabalho infantil, imposições injustas, etc.), na política (o domínio de um ou vários partidos, o poder do chefe, o totalitarismo, a exclusão dos cidadãos na tomada de decisões, a guerra, a revolução, a luta armada pelo poder, etc.), na ideologia (implantação de critérios oficiais, proibição do livre pensamento, subordinação dos meios de comunicação, manipulação da opinião pública, propaganda de conceitos de fundo violento e discriminador que resultam cômodos à elite governante, etc.), na religião (submissão dos interesses do indivíduo aos requerimentos clericais, controle severo do pensamento, proibição de outras crenças e perseguição de hereges), na família (exploração da mulher, ditado sobre os filhos, etc.), no ensino (autoritarismos de professores, castigos corporais, proibição de programas livres de ensino, etc.), no exército (voluntarismo de chefes, obediência irreflexiva de soldados, castigos, etc.), na cultura (censura, exclusão de correntes inovadoras, proibição de editar obras, ditados da burocracia, etc.,).


“Quando se fala de violência, geralmente se faz alusão à violência física, por ser esta a expressão mais evidente da agressão corporal. Outras formas como a violência econômica, racial, religiosa, sexual, etc., em algumas ocasiões podem atuar ocultando seu caráter, desembocando, definitivamente, no avacalhamento da intenção e a liberdade humanas. Quando estas se evidenciam, se exercem também por coação física”.

 

Cotidianamente podemos reconhecer que a maior parte destas formas de violência que se mencionam são exercidas de forma encoberta, por isso dificilmente são identificadas pelas povoações como tais.

 
Observamos que todos os feitos de violência física encontram sua origem nessas outras formas de violência. Definitivamente, estas são o germe que termina disparando respostas de violência física.


E quando esta resposta “visível” chega, costuma-se tentar ações para revertê-la, sem advertir que esta é só a conseqüência, o último elo de uma corrente de outras violências que passam inadvertidas para todos, menos para quem a padece.
E essa resposta pode provir do poderoso, exercendo-a sobre aquele que se rebela e a quem já não pode disciplinar, ou se expressa como reação exercida por aquele que padeceu violências de todo tipo.


A violência econômica, por exemplo, exercida pelos governos sobre as povoações, geralmente sobre as camadas mais desempossadas, não mostra seu verdadeiro rosto desde o início. Os governantes ao invés disso a disfarçam, já que necessitam captar a “confiança” e os votos dos povos, e estes não advertem o germe da violência que já está instalado.

Só quando se estende o desespero pela perda de postos de trabalho, se restringe o acesso à saúde, à educação, começam a crescer a marginação, o trabalho infantil, a deserção escolar, para mencionar só algumas, somente então as populações reagem e os poderes “disciplinam” toda tentativa de repúdio com repressão.


Os poderes estabelecidos sempre têm recursos para utilizar no interior dos países, ou desde fora para ameaçar e extorquir ante a mínima tentativa de “desobediência”. Ame-aça de invasão e de guerra para impor condições.

 
Assim a corrente de violência que se inicia em um lugar, sobre um setor ou sobre um povo, não encontra limite no seu desdobramento no afã de concentração de poder político e econômico. Se a isto somamos o ingrediente de que o poder econômico a nível mundial se apóia em um dos negócios mais rentáveis como é a fabricação de armamentos, o panorama está completo.


Só então se adverte a violência, que já estava na própria origem deste processo.
Somente então se compreende que a violência física suscitada tem sua origem na violência econômica exercida desde o poder.


Porém, nessas alturas, as nefastas conseqüências da violência física que se suscita já não têm remédio, são inevitáveis.

Também no Dicionário do Novo Humanismo expressa-se que “Uma tarefa especial das forças autenticamente humanistas consiste em superar os rasgos agressivos da vida social: propiciar a harmonia, a não–violência, a tolerância e a solidariedade”

Existe uma atitude de rejeição generalizada pela violência.


No entanto, nos perguntamos onde está essa sociedade enfastiada de violência, quando em cada sinal de trânsito vemos um desfile de crianças e adolescentes pedindo esmola, sabendo que estão à mercê de qualquer oferecimento que se faça em troca de uma moeda.


E em que lugar de sua justificada moral, se põe a imagem de tanto menino que vê diariamente, revirando lixo, comendo lixo, juntando papelões, explorados e abusados desde todos os pontos de vista.


Onde está a sensibilidade dessa sociedade, que não a impulsiona na mais mínima reação pela promoção de políticas que mudem a situação para essas crianças?
Como é que não se adverte que, justamente aí, gera-se um caldo de cultivo para suscitar um processo de violência de conseqüências imprevisíveis, para eles e para o resto da sociedade?


E se advertido, como é que a sociedade não se organiza para exigir uma drástica mudança de condições como imperativo para acabar com a violência?
As campanhas e ações contra a violência para o meio ambiente e os animais ganharam mais adeptos que uma ação combinada para expatriar a violência sobre o ser humano.


De fato, não há marchas em massa nas quais a sociedade toda se envolva indiscriminadamente, para exigir que se efetivem os direitos da infância, ou de repúdio à exploração infantil - tão à vista de todos-, ou por igualdade de oportunidades para os jovens ou contra o negócio da droga.


Enquanto isso, os cidadãos sensíveis exibem orgulhosamente a organização de correntes humanas pela defesa dos “direitos das baleias”...

 
Certamente, se a sociedade no seu conjunto advertisse essa multiplicidade de formas de violência, que vão se entrelaçando afetando amplas capas da população, e brigasse de modo contundente e decidido pela sua desarticulação, estaria operando não já sobre as conseqüências, mas sobre as causas da violência, evitando assim doenças irremediáveis.


Se quisermos operar sobre os fatores que geram violência, temos que advertir que quando se produz um fato de violência física, já é tarde, já se suscitou esse processo

no interior das pessoas, gerado certamente desde fora, e que deixa o verdadeiro responsável impune.


O passo prévio é o reconhecimento desse germe que também podemos reconhecer em cada um de nós, e que podemos desarticular, evitando uma situação de conseqüências não desejadas.


Necessitamos deter-nos um momento, observar as injustiças sociais e considerar que semelhante violência necessariamente terá derivações catastróficas: transbordes sociais, reclamações em massa, com um alto componente de violência (impotência) e fatalmente correspondida com uma repressão brutal.

 

Temos direito a viver sem violência, sem padecer e sem que outros a padeçam para alcançar o ideal de paz.


Isto requer de uma ação combinada da comunidade internacional, de cada governo e cada povo e de cada pessoa. Silo disse, em tal sentido, a ação que corresponde a cada um:


“É preciso fazer algo, se escuta em todas as partes. Pois bem, eu direi o que é preciso fazer.


Eu digo que na ordem internacional, todos os que estão invadindo territórios deveriam retirar-se de imediato e acatar as resoluções e recomendações das Nações Unidas.


Digo que na ordem interna das nações deveria se trabalhar para fazer funcionar a lei e a justiça, por imperfeitas que sejam, antes do que endurecer leis e disposições repressivas que cairão nas mesmas mãos dos que entorpecem a lei e a justiça.


Digo que na ordem doméstica a gente deveria cumprir o que predica saindo de sua retórica hipócrita que envenena às novas gerações.


Digo que na ordem pessoal, cada um deveria se esforçar para conseguir que coincidisse o que pensa com o que sente e o que faz, modelando uma vida coerente e escapando da contradição que gera violência” (Punta de Vacas 4 de maio de 2004)
 

Bibliografia
Silo, Obras Completas, Volume II, “Dicionário do Novo Humanismo”

 

5 - A Violência

1. Quando se fala de metodologia de acção referida à luta política e social, frequentemente alude-se ao tema da violência. Mas há questõeas prévias às que o tema mencionado não é alheio.

2. Enquanto o ser humano não realize plenamente uma sociedade humana, quer dizer, uma sociedade em que o poder esteja no todo social e não numa parte dele (submetendo e objectivando o conjunto), a violência será o signo sob o qual se realize toda a actividade social. Por isso, ao falar de violência há que mencionar o mundo instituído e, se a esse mundo se opõe uma luta não-violenta, deve destacar-se, em primeiro lugar, que uma atitude não-violenta é tal porque não tolera a violência. De maneira que não se trata de justificar um determinado tipo de luta, mas sim de definir as condições de violência que impõe esse sistema inumano.

3. Por outro lado, confundir não-violência com pacifismo, leva a inumeráveis erros. A não-violência não necessita justificação como metodologia de acção, mas o pacifismo necessita estabelecer ponderações sobre os factos que acercam ou afastam da paz, entendendo esta como um estado de não beligerância. Por isso, é que o pacifismo encara temas como os do desarmamento, fazendo disto a prioridade essencial de uma sociedade, quando, na realidade, o armamentismo é um caso de ameaça de violência física que responde ao poder instituído por uma minoria que manipula o Estado. O tema do desarmamento é de importância capital e, se bem que o pacifismo se dedique a esta urgência, ainda quando tenha êxito nas suas demandas, não modificará, por isso, o contexto da violência e, desde logo, não poderá estender-se, senão artificiosamente, ao plano da modificação da estrutura social. É claro que também existem diferentes modelos de pacifismo e diferentes bases teóricas dentro de tal corrente, mas, em todo o caso, não deriva dela um plano maior. Se, ao invés, a sua visão do mundo fosse mais ampla, certamente estaríamos em presença de uma doutrina que inclui o pacifismo. Neste caso, deveríamos discutir os fundamentos dessa doutrina, antes de aderir ou refutar o pacifismo que de ela deriva.

 

6 - A Mudança e a Crise


(Com base na Carta III, do Livro “Cartas a Meus Amigos”)


Nesta época de grande mudança estão em crises os indivíduos, as instituições e a sociedade. A mudança será cada vez mais rápida e também as crises individuais, institucionais e sociais. Isto anuncia perturbações que talvez não sejam assimiladas por amplos setores humanos.


As transformações que estão ocorrendo tomam direções inesperadas, produzindo desorientação geral a respeito do futuro e do que se deve fazer no presente. Na realidade não é a mudança o que nos perturba, já que nela observamos muitos aspectos positivos. O que nos inquieta é não saber em que direção vai a mudança, e para onde orientar nossa atividade.


A mudança está ocorrendo na economia, na tecnologia e na sociedade; sobretudo está operando em nossas vidas: em nosso meio familiar e trabalhista, em nossas relações de amizade. Estão se modificando nossas idéias e o que acreditávamos sobre o mundo, sobre as demais pessoas e sobre nós mesmos. Muitas coisas nos estimulam, mas outras nos confundem e paralisam. O comportamento dos demais e o próprio nos parecem incoerentes, contraditórios e sem direção clara, tal como ocorre com os eventos que nos rodeiam.


Portanto, é fundamental dar direção a essa mudança inevitável, e não há outra forma de fazê-lo a não ser começando por si mesmo. Em si mesmo deve dar-se direção a estas mudanças desordenadas cujo rumo desconhecemos. 


Como os indivíduos não existem isolados, se realmente direcionam sua vida modificarão a relação com outros: na sua família, no seu trabalho e onde eles atuarem. Este não é um problema psicológico que se resolve dentro da cabeça de indivíduos isolados, mas se resolve mudando a situação em que se vive com outros, mediante um comportamento coerente. Quando festejamos sucessos ou nos deprimimos pelos nossos fracassos, quando fazemos planos a futuro ou nos propomos a introduzir mudanças em nossa vida, esquecemos o ponto fundamental: estamos em situação de relação com outros. Não podemos explicar o que nos ocorre, nem escolher, sem referência a certas pessoas e a certos âmbitos sociais concretos.

 

Essas pessoas que têm especial importância para nós e esses âmbitos sociais nos quais vivemos nos põem em uma situação precisa desde a qual pensamos, sentimos e atuamos. Negar isto ou não levá-lo em conta cria enormes dificuldades. Nossa liberdade de escolha e ação está delimitada pela situação em que vivemos. Qualquer mudança que desejemos operar não pode ser formulada em abstrato, mas com referência à situação em que vivemos.

 

 

7 - A Verdadeira Solidariedade

 

Consideremos estas idéias: “Onde há sofrimento e posso fazer algo para aliviá-lo, tomo a iniciativa. Onde não posso fazer nada, sigo meu caminho alegremente”.
Semelhantes idéias parecem práticas, mas nos deixam o sabor de falta de solidariedade. Como seguir em frente alegremente deixando para trás o sofrimento, desentendendo-nos do pesar alheio?


Vejamos um exemplo. No meio da calçada, um homem cai em violentas convulsões. Os transeuntes se concentram, dando instruções contraditórias e criando ao redor do doente um cerco asfixiante. Muitos se preocupam, mas não são efetivos. Talvez quem chame urgentemente ao médico, ou aquele outro que põe a raia aos curiosos para evitar o aglomeramento, sejam os mais ajuizados. Eu posso ser um dos que tomam a iniciativa, ou talvez um terceiro que consegue algo positivo e prático em tal situação. Mas se atuo por simples solidariedade criando confusão, ou obstaculizando aos que podem fazer algo prático, não ajudo, e sim prejudico.


O anterior é compreensível, mas que quer dizer: “…Onde não posso fazer nada, sigo meu caminho alegremente”? Não quer dizer que estou muito contente por isso que sucedeu. Quer dizer que minha direção não deve ser entorpecida pelo inevitável; quer dizer que não devo somar problemas aos problemas; quer dizer que devo positivizar o futuro, já que o oposto não é bom para outros nem para mim.


Há pessoas que, com uma mal entendida solidariedade, negativizam quem quer ajudar e prejudicam a elas mesmas. Essas são diminuições da solidariedade, porque a energia perdida nesse comportamento deveria haver-se aplicado em outra direção, em outras pessoas, em outras situações nas quais efetivamente tivesse obtido resultados práticos. Quando falamos de resultados práticos, não nos referimos somente ao brutalmente material, porque até um sorriso ou uma palavra de encorajamento podem ser úteis se existe uma possibilidade de que ajudem.

 


8 - A coerência como direção de vida


Se quisesse dar alguma direção aos eventos seria preciso começar pela própria vida e, para fazê-lo, teríamos que levar em conta o meio no qual atuamos. Mas a que direção podemos aspirar? Sem dúvida, à que nos proporcione coerência e apoio em um meio tão cambiante e imprevisível. Pensar, sentir e atuar na mesma direção é uma proposta de coerência na vida. No entanto, isto não é fácil porque nos encontramos em uma situação que não escolhemos completamente. Estamos fazendo coisas que necessitamos mesmo que em grande desacordo com o que pensamos e sentimos. Somos colocados em situações que não governamos. Atuar com coerência mais que um fato é uma intenção, uma tendência que podemos ter presente de maneira que nossa vida vá direcionando-se para esse tipo de comportamento. É claro que unicamente poderemos mudar parte de nossa situação, se influímos nesse meio. Ao fazê-lo, estaremos direcionando a relação com outros e outros compartilharão tal conduta. Se ao anterior se objeta que algumas pessoas mudam de meio com certa freqüência em razão de seu trabalho ou por outros motivos, responderemos que isso não modifica em nada o formulado, já que sempre se estará em situação, sempre se estará em um meio dado. Se pretendermos coerência, o trato que dermos aos demais terá que ser do mesmo gênero que o trato que exigimos para nós. Assim, nestas duas propostas encontramos os elementos básicos de direção até onde chegam nossas forças. A coerência avança conforme avança o pensar, sentir e atuar na mesma direção. Esta coerência se estende a outros, porque não há outra forma de fazê-lo, e ao estender-se a outros começamos a tratá-los do modo que queremos ser tratados. Coerência e solidariedade são direções, aspirações de condutas a alcançar.

 

 

9 - A Respeito do Humano


Uma coisa é a compreensão do fenômeno humano em geral, e outra muito diferente é o próprio registro da humanidade em outros.



1 a. questão: A compressão do fenômeno humano em geral


Quando se diz que o característico do humano é a sociabilidade ou a linguagem ou a transmissão de experiência, não se define cabalmente o humano, quando no mundo animal (mesmo que desenvolvido de maneira elementar) encontramos todas essas expressões.
Também encontramos um tipo de "moral" animal e resultados sociais punitivos para os transgressores, ainda quando de fora do regulamento da espécie, ou por uma imbricação de reflexos condicionados e incondicionados.

 
Conservamos reconhecimentos químicos de organismos de outra colméia, formigueiro, cardume ou manada, e atrações e rejeições conseqüentes. O rudimento técnico também não é alheio ao mundo animal, nem o são os sentimentos de afeto, ódio, pena e solidariedade entre membros de um grupo ou entre grupos, ou entre espécies. Existem organizações hospedeiras, parasitas e simbiônticas nas que reconhecemos formas fundamentais do que depois veremos peralteado nos agrupamentos humanos...


O que define o humano como tal? O define a reflexão do histórico-social como memória pessoal. Todo animal é sempre o primeiro animal, mas cada ser humano é um meio histórico e social e é, além disso, a reflexão e o aporte à transformação ou inércia desse meio.

 

O meio para o animal é meio natural.


O meio para o ser humano é meio histórico e social, é transformação do mesmo e, claro, é adaptação do natural às necessidades imediatas e às de mais longo prazo.
Esta resposta diferida do ser humano frente aos estímulos imediatos, este sentido e direção de seu agir respeito de um futuro calculado (ou imaginário), nos apresenta uma característica nova frente ao sistema de ideação, de comportamento e de vida dos expoentes animais. A ampliação do horizonte temporal da consciência humana permite a ela atrasos frente aos estímulos e localização destes em um espaço mental complexo, habilitante para a localização de deliberações, comparações e resultados fora do campo perceptual imediato.


Em outras palavras: no ser humano não existe “natureza” humana, a menos que esta “natureza” seja considerada como uma capacidade diferente da animal, de movimentar-se entre tempos fora do horizonte de percepção. Direi de outro modo: se há algo “natural” no ser humano não o é em sentido mineral, vegetal ou animal, mas no sentido de que o natural nele é a mudança, a história, a transformação.


Tal idéia de mudança não advém convenientemente da idéia de “natureza” e por isso preferimos não usar esta palavra como se vem fazendo, e com a qual se justificaram numerosas deslealdades para o ser humano. Por exemplo: porque os nativos de um lugar eram diferentes aos conquistadores de outro lugar, foram chamados os "naturais" ou aborígines. Porque as raças apresentaram algumas diferenças morfológicas ou pigmentarias, foram assimiladas a diferentes naturezas dentro da espécie humana, e assim seguindo. O estabelecido de um modo permanente: raças diferentes estavam estabelecidas dentro de uma ordem supostamente natural, que devia conservar-se de modo permanente.

 

Assim é que a idéia de natureza humana serviu a uma ordem de produção natural, mas se fraturou na época de transformação industrial.


Ainda hoje ficam vestígios da ideologia zoológica do todos os seres humanos, na psicologia, por exemplo, na qual ainda se fala de certas faculdades naturais como a "vontade" e coisas semelhantes.


O direito natural, o Estado como parte do todos os seres humanos projetado, etc.; não contribuiu mais que com sua cota de inércia histórica e de negação da transformação.


Se a co-presença da consciência humana trabalha graças à sua enorme ampliação temporária, e se a intencionalidade daquela permite projetar um sentido, o característico do ser humano é ser e fazer o sentido do mundo, "Nomeador de mil nomes, fazedor de sentido, transformador do mundo... teus pais e os pais de teus pais se continuam em ti. Não és um bólido que cai, mas uma brilhante seta que voa para os céus. Es o sentido do mundo e quando aclaras teu sentido iluminas a terra. Dir-te-ei qual é o sentido de tua vida aqui: HUMANIZAR A TERRA, Que é humanizar a terra? É superar a dor e o sofrimento, é aprender sem limite, é amar a realidade que constróis..."


Bem, estamos a uma grande distância da idéia de todos os seres humanos. Estamos no oposto. Quero dizer, se o natural tinha asfixiado o humano, graças a uma ordem imposta com a idéia do permanente, agora estamos dizendo o contrário: que o natural deve ser humanizado e que esta humanização do mundo faz do homem um criador de sentido, de direção, de transformação. Se esse sentido é libertador das condições supostamente "naturais" de dor e sofrimento, o verdadeiramente humano é o que vai além do natural: é teu projeto, teu futuro, teu filho, tua brisa, teu amanhecer, tua tempestade, tua ira e tua carícia. É teu temor e teu tremor por teu futuro, por um novo ser humano livre de dor e sofrimento.



2 a. questão: O próprio registro do Humano em outros

 

Enquanto registre do outro, sua presença "natural", o outro não passará de ser uma presença ‘objetificada’, ou particularmente animal. Enquanto esteja anestesiado para perceber o horizonte temporal do outro, o outro não fará sentido mas que para - mim, me constituo e me alieno em meu próprio para-si. Quero dizer: "eu sou para - mim" e com isto fecho meu horizonte de transformação.

 
Enquanto não experimente ao outro fora do para - mim, minha atividade vital não humanizará ao mundo.


O outro deveria ser o meu registro interno, uma cálida sensação de futuro aberto que nem sequer termina no sem-sentido coisificador da morte. Sentir o humano do outro é sentir a vida do outro em um formoso e multicor arco íris, que mais se afasta na medida em que quero deter, apanhar, arrebatar sua expressão. Tu te afastas e eu me reconforto, se é que contribuí para cortar tuas correntes, para superar tua dor e sofrimento. E se vens comigo é porque te constituis em um ato livre como ser humano, não simplesmente porque tens nascido "humano”.


Eu sinto em ti a liberdade e a possibilidade de constituir-te em ser humano. E meus atos têm em ti meu alvo de liberdade.


Então, nem ainda tua morte detém as ações que puseste em marcha, porque és essencialmente tempo e liberdade.

 
Amo, pois o ser humano, sua humanização crescente. E em momentos de crises, de coisificação, em momentos de desumanização, amo sua possibilidade de reabilitação futura.

 

10 - Chegar a toda a sociedade a partir do meio imediato


Sabemos que ao mudar positivamente nossa situação, estaremos influindo em nosso meio, e outras pessoas compartilharão este ponto de vista dando lugar a um sistema de relações humanas em crescimento. Teremos que nos perguntar: por que deveríamos ir além de onde começamos? Simplesmente por coerência com a proposta de tratar aos outros como queremos que nos tratem. Ou por acaso não levaríamos aos demais algo que foi fundamental para nossas vidas? Se a influência começa a desenvolver-se é porque as relações e, portanto, os componentes de nosso meio, se ampliaram. Esta é uma questão que deveríamos levar em conta desde o começo, porque ainda quando nossa ação começa aplicando-se em um ponto reduzido, a projeção dessa influência pode chegar muito longe. Não tem nada de estranho pensar que outras pessoas decidam somar-se na mesma direção. Depois de tudo, os grandes movimentos históricos seguiram o mesmo caminho: começaram pequenos, como é lógico, e se desenvolveram graças ao fato de que as pessoas os consideraram intérpretes de suas necessidades e inquietações. Atuar no meio imediato, mas com o olhar colocado no progresso da sociedade, é coerente com tudo o dito. De outro modo, para que faríamos referência a uma crise global que deve ser enfrentada resolutamente se tudo terminasse em indivíduos isolados para quem os demais não têm importância? Por necessidade de pessoas que coincidam em dar uma nova direção a sua vida e aos eventos, surgirão âmbitos de discussão e comunicação direta. Mais adiante, a difusão através de todos os meios permitirá ampliar a superfície de contato. Outro tanto ocorrerá com a criação de organismos e instituições compatíveis com este planejamento.

 

 

11 - A Ação Transformadora do Ser Humano


Contígua à concepção da natureza humana tem operado outra que nos falou da passividade da consciência. Esta ideologia considerou o homem como uma entidade que agia em resposta aos estímulos do mundo natural. O que começou em grosseiro sensualismo, aos poucos foi sendo deslocado por correntes historicistas que conservaram no seu seio a mesma idéia em torno da passividade. E ainda quando privilegiaram a atividade e a transformação do mundo por sobre a interpretação de seus fatos, conceberam a dita atividade como resultante de condições externas à consciência. Mas, aqueles antigos preconceitos em torno da natureza humana e da passividade da consciência hoje se impõem, transformados em neo-evolucionismo, com critérios tais como a seleção natural que se estabelece na luta pela sobrevivência do mais apto. Tal concepção zoológica, na sua versão mais recente, ao ser esta transplantada ao mundo humano tratará de superar as anteriores dialéticas de raças ou de classes com uma dialética estabelecida segundo leis econômicas «naturais» que auto-regulam toda a atividade social. Assim, mais uma vez, o ser humano concreto fica submerso e objetivado.


Mencionamos acima as concepções que para explicar o homem começam desde generalidades teóricas e sustentam a existência de uma natureza humana e de uma consciência passiva. Em sentido oposto, nós sustentamos a necessidade de arranque desde a particularidade humana, sustentamos o fenômeno histórico-social e não natural do ser humano e também afirmamos a atividade de sua consciência transformadora do mundo, de acordo com sua intenção. Vemos sua vida em situação e seu corpo como objeto natural percebido imediatamente e submetido também imediatamente a numerosos ditados de sua intenção. Por conseguinte se impõem as seguintes perguntas: como é que a consciência é ativa? Isto é, como é que ela pode intencionar sobre o corpo e através dele transformar ao mundo? Em segundo lugar, como é que a constituição humana é histórico-social? Estas perguntas devem ser respondidas a partir da existência particular para não recair em generalidades teóricas segundo as quais se deriva depois um sistema de interpretação. Desta maneira, para responder à primeira pergunta terá que apreender-se, com evidência imediata, como a intenção atua sobre o corpo e, para responder à segunda pergunta haverá que partir da evidência da temporalidade e da intersubjetividade no ser humano e não de leis gerais da história e da sociedade. Em nosso trabalho, Contribuições ao Pensamento, trata-se de dar resposta precisamente a essas duas perguntas. No primeiro ensaio de Contribuições se estuda a função com que cumpre a imagem na consciência, destacando sua aptidão para movimentar o corpo no espaço. No segundo ensaio do mesmo livro, se estuda o tema da historicidade e sociabilidade. A especificidade destes temas nos afasta demais da presente carta, por isso remetemos ao material citado.

 

12 - O(A) Voluntário(a)

Ao que parece, muitas pessoas que atuam em nosso movimento têm antecedentes de voluntariedade e não de voluntarismo, que são dois conceitos diferentes. Aparentemente existem muitos assistentes sociais, enfermeiras, professores, pessoas que, embora desenvolvendo atividades remuneradas, não se sentem de, modo nenhum, compensados com a remuneração que recebem pela atividade que desempenham. É certo que se lhes pagam mal irão protestar mais do que os outros para que sejam melhor remunerados, mas a orientação básica de suas atividades não termina neles mesmos, mas é direcionada para fora; depois virá, por problemas do cotidiano e outras razões, a necessidade de receberem remuneração por seu trabalho.

 

Mas essas pessoas ainda que lhes paguem mal têm forte tendência a ensinar coisas. O que é que nos querem dizer? E os outros profissionais que desenvolvem este tipo de atividade e não recebem nada por isso? No nosso Movimento existem muitas pessoas com antecedentes deste tipo. Há aquele que organizou um clube de bairro, aquele que quando era novo montou uma equipe de qualquer coisa... Vêm ao nosso Movimento e muitos deles são os que põem tudo em marcha. Outros não. Outros vêm em outras condições e buscando outras coisas, mas quando entendem o significado deste trabalho, afastam-se. Assim muitos são os que atuam em nosso trabalho, extraindo dele um sentido de justiça interna. Colocam-se em atividade com a mesma tendência e experiências das atividades que já haviam executado antes. Pode observá-los, há muitos exemplos. Não sei como será aqui, mas em todas as partes do mundo numerosos amigos nossos têm essas características e coincidem, em geral, com os que põem em marcha coisas. Eles têm na sua biografia antecedentes deste tipo.

 

Mas porque razão algumas pessoas fazem as coisas transcendendo o efeito imediato da ação desinteressada? O que se passa em suas cabeças para agirem de modo tão estranho? Do ponto de vista das sociedades consumistas, essa é uma forma atípica de agir. Todo aquele que nasceu e cresceu recebendo o impacto e a difusão de uma estrutura consumista, tende a ver o mundo no sentido da nutrição pessoal. Ele pensará que sendo um consumidor terá que tragar coisas. E como uma espécie de grande estômago que deve ser enchido. De forma alguma ele pensa que alguma coisa deva sair dele e dirá: - já sai bastante de mim, para que tenha direito a muitos bens de consumo. Já não dedico tantas horas ao meu trabalho no escritório, e pago com meu tempo todo tempo em que deixo de consumir para trabalhar no sistema? Efetivamente, isso é bem razoável. Ele, à sua maneira, troca horas de trabalho, horas/homem, por remuneração. Ele não põe a tônica do seu trabalho na atividade que desempenha no mundo, considera isto um mal necessário para que o circuito acabe em si mesmo. Assim estão montados os sistemas de um signo e outro signo. A coisa é a mesma: o consumidor.

 

A população está ficando neurótica, porque há um circuito de entrada e outro de saída. E se cortarmos o circuito de saída iremos gerar vários problemas. Mas o fato é que a maioria das pessoas está nesta história de receber e, ao propagar a ideologia do receber, não conseguem explicar como podem existir pessoas que fazem as coisas sem receber nada em troca.

Do ponto de vista do consumismo, isto é extremamente suspeito. Porque motivo alguém iria atuar sem receber o pagamento equivalente ao seu esforço? Essa suspeita, na realidade, revela um péssimo conhecimento do ser humano. Os que suspeitam disto, têm compreendido a utilidade em termos de dinheiro, e não a utilidade vital e psicológica. Por causa disto não faltam pessoas que, com elevado nível de vida e com todos os seus problemas resolvidos, se atiram pela janela ou vivem alcoolizado, drogado ou, em um momento de insanidade, assassina seu vizinho.

 

Nós reivindicamos publicamente algo que está desprestigiado. Reivindicamos aquele que salta da sua cama porque se está incendiando uma casa próxima. Ele rapidamente põe a roupa, seu capacete e sai correndo para apagar o incêndio. Quando volta (às seis da manhã, cheio de fumaça, chamuscado, com feridas) sua mulher do coração atira-lhe pratos na cara, dizendo: “Quanto te pagam por isso? Vais chegar tarde ao trabalho e criar-nos um problema por causa das tuas manias!”. Saindo ele de casa, o apontarão dizendo: “Sim, esse é o bombeiro voluntário”. Uma espécie de idiota frente aos outros que sentindo-se tão bem consigo mesmos, atiram-se pela janela. Normalmente, os bombeiros voluntários não se atiram pela janela. Quer dizer que eles, do seu modo, empiricamente, encontraram uma forma de aplicar sua energia em direção ao mundo. Eles não só tem podido lançar-se catarticamente a certas atividades (também os outros podem fazê-lo através do esporte, através da confrontação, através de muitíssimas operações) como também podem fazer algo mais. Eles podem, à diferença de outras pessoas, fazer algo muito mais importante: pôr um significado interno no mundo. E nesse caso, cumprem uma função empiricamente transferencial. Estão a compondo conteúdos que partem deles para o mundo e não estão respondendo a estímulos convencionais. É muito diferente aquele que está obrigado a fazer determinadas coisas em troca de uma remuneração, do que este outro que parte do seu mundo interno para o mundo externo e nele se expressa. Nele, voluntariamente, plasma conteúdos que não estão nada claros, nem para si mesmos e às vezes procura compreendê-los com palavras como “solidariedade” sem entender qual é o significado profundo de tal vocábulo. E mais: este pobre voluntário, que cada vez que chega à sua casa lhe atiram pratos e gozam-no, vai acabar por pensar que ele é efetivamente uma espécie de estúpido e vai concluir: “sempre me acontece isto”. E nem falar se ao invés de um voluntário for uma voluntária. Nesta sociedade, a coisa é grave ainda.

No fim estes voluntários acabam humilhados e assimilados pelo sistema porque ninguém lhes explicou como tudo isto acontece. Eles sabem que são diferentes dos outros, mas não podem se dar explicações sobre o que fazem. E se pegamos neles e lhes dizemos: “bom, vamos lá ver o que é que vocês ganham”, vão balbuciar e encolher os ombros como se tivessem que ocultar alguma coisa vergonhosa. Ninguém os esclareceu, ninguém lhes deu as ferramentas suficientes para se auto-explicarem e explicarem a outros, porque o enorme potencial que têm verte ao mundo sem esperar retribuição. E isso, desde já, é extraordinário.

Cidade de México, México.

11 de Outubro de 1980

Comentários (durante um intervalo) perante um grupo de estudos.